Apneia do Sono: Sintomas e Quando Preocupar-me

Dormes oito horas. Oito. E, no entanto, acordas como se tivesses passado a noite a descarregar camiões. Ao pequeno-almoço já estás a bocejar, às três da tarde davas tudo por vinte minutos de sofá, e há quem te diga — meio a brincar, meio a sério — que ressonas de acordar os vizinhos e que, às vezes, pareces parar de respirar.

Se isto te soa familiar, este artigo é importante. Porque há uma explicação que não é preguiça, nem idade, nem "sou mesmo assim": chama-se apneia do sono. E, ao contrário de quase tudo o que escrevo aqui, este é um tema onde não te vou dizer para relaxar. Este merece atenção.

Homem a ressonar de boca aberta enquanto a companheira, acordada, tapa os ouvidos — o ressonar alto é um dos principais sintomas da apneia do sono

O que é, afinal, a apneia do sono

Enquanto dormes, os músculos da garganta relaxam. Na apneia obstrutiva do sono, relaxam demasiado: a via aérea fecha-se, parcial ou totalmente, e o ar deixa de passar. O peito continua a fazer força, mas não entra nada — como tentar beber por uma palhinha esmagada.

Ao fim de alguns segundos, o oxigénio no sangue desce e o cérebro faz a única coisa que pode: acorda-te. Não a valer — é um micro-despertar de que quase nunca te lembras. Os músculos voltam ao lugar, o ar volta a passar (muitas vezes com aquele ressonar explosivo ou um engasgo), e adormeces outra vez. E depois repete-se. Dezenas de vezes por hora. Noite inteira.

Percebes agora o mistério das oito horas? Estiveste na cama oito horas — mas o teu cérebro foi interrompido centenas de vezes e nunca chegou ao sono profundo a sério. Dormiste em quantidade, não em qualidade.

Não é raro. É invulgarmente comum.

Aqui está o número que me fez querer escrever isto. Uma análise publicada na The Lancet Respiratory Medicine estimou que, no mundo, cerca de 936 milhões de adultos entre os 30 e os 69 anos têm apneia do sono (ligeira a grave) — e 425 milhões têm-na em grau moderado a grave.[1]

Para teres a noção: é quase um em cada sete adultos do planeta. E a parte incómoda é que a esmagadora maioria não faz ideia. É uma doença que acontece exactamente quando não estamos conscientes para dar por ela — o que a torna especialista em passar despercebida durante anos.

Os sintomas: o que procurar

A apneia raramente se apresenta. Manda sinais indirectos, e quase todos são fáceis de desculpar com outra coisa qualquer:

Repara num pormenor cruel: tu és a pessoa menos bem colocada para detectar isto. Os sintomas mais reveladores acontecem enquanto dormes. Se vives com alguém, essa pessoa é o teu melhor exame de diagnóstico — e vale a pena perguntar-lhe a sério.

O teste caseiro de 4 perguntas

Existe uma ferramenta de rastreio usada em todo o mundo, criada por investigadores e validada em contexto clínico: o questionário STOP.[2] São quatro perguntas, e o nome é o acrónimo delas em inglês:

A leitura é simples: duas ou mais respostas "sim" colocam-te no grupo de risco elevado e justificam uma conversa com o médico. O risco sobe ainda mais se juntares alguns factores conhecidos: excesso de peso, pescoço largo, ser homem, ter mais de 50 anos, ou beber álcool à noite (que relaxa ainda mais os músculos da garganta — mais uma razão para o cortar).

Isto é um rastreio, não um diagnóstico. O STOP serve para levantar a bandeira — não para dizer se tens ou não apneia. Duas respostas "sim" não significam que tens; zero respostas não garantem que não tens. Só um exame do sono responde a isso, e só um médico o pode interpretar.

E por onde começo, em Portugal? Pelo teu médico de família, no centro de saúde: é ele que avalia e, se fizer sentido, te encaminha para uma consulta do sono. Se quiseres falar com alguém antes disso, o SNS 24 tem aconselhamento gratuito 24 horas por dia através do 808 24 24 24.

Pessoa exausta durante o dia, com sonolência diurna — um dos principais sintomas da apneia do sono

Porque é que isto merece ser levado a sério

Se fosse só ressonar e andar cansado, era chato. Mas a apneia não fica por aí — e é aqui que mudo o tom.

Cada pausa na respiração é um pequeno stress para o corpo: o oxigénio cai, o coração acelera, a tensão sobe. Centenas de vezes por noite, todas as noites, durante anos. A Associação Americana de Cardiologia publicou uma tomada de posição científica que liga a apneia do sono a hipertensão (sobretudo a que resiste à medicação), arritmias como a fibrilhação auricular, doença coronária, insuficiência cardíaca e AVC.[3]

E há o risco imediato, que não é estatístico nem distante: a sonolência ao volante. Adormecer meio segundo numa auto-estrada não perdoa.

Fala com um médico sem demora se: alguém testemunhou que paras de respirar enquanto dormes; acordas a engasgar ou sem ar; sentes sonolência a conduzir ou já "apagaste" por segundos ao volante; tens tensão alta difícil de controlar apesar da medicação; ou acordas com dores no peito ou palpitações nocturnas. Nenhum destes sinais deve esperar pela próxima consulta de rotina.

Como se confirma (e o que esperar)

Boa notícia: diagnosticar apneia é hoje bastante acessível. A guideline da Academia Americana de Medicina do Sono estabelece dois caminhos:[4]

O exame mede o número de paragens respiratórias por hora — o tal índice que classifica a apneia em ligeira, moderada ou grave, e que define o tratamento. E os tratamentos existem e funcionam: desde perder peso e mudar de posição de dormir, até ao CPAP (o aparelho que mantém a via aérea aberta com ar sob pressão), passando por dispositivos dentários. Não é uma sentença — é um problema com solução, desde que se lhe dê o nome.

Enquanto esperas pela consulta: há duas coisas simples que costumam ajudar. Dormir de lado em vez de barriga para cima (de costas, a gravidade fecha-te a garganta) e cortar o álcool à noite — relaxa os músculos da via aérea e agrava as pausas. Não substituem o tratamento, mas aliviam.

Dormir de Lado num Colchão Duro Custa

Se te disseram para dormir de lado mas o teu colchão é duro, o ombro e a anca vão protestar — e acabas de barriga para cima outra vez. Um sobrecolchão macio amacia a superfície sem trocares de colchão.

Salvar o Meu Colchão

Conclusão

A apneia do sono é das coisas mais comuns de que quase ninguém desconfia — e é, provavelmente, a razão mais subestimada para alguém dormir oito horas e acordar destruído. Se ressonas alto, se te disseram que paras de respirar, e se o cansaço te persegue de dia: faz o STOP mentalmente. Duas respostas "sim" são motivo suficiente para marcar uma consulta — não para entrar em pânico, mas para deixar de adivinhar.

É o género de coisa em que ninguém se arrepende de ter ido ver. E, se for o caso, tratar a apneia costuma devolver às pessoas uma coisa que já nem se lembravam de ter: acordar descansado.

Para continuares: se o teu cansaço não vem daqui, vale a pena rever as fundações — os 7 hábitos de higiene do sono. E como o álcool à noite agrava a apneia (e o sono em geral), vê o que a ciência diz sobre alimentos e sono. Tens tudo aqui no Saúde e Sono.

Dorme bem — e a respirar! 😴

Referências Bibliográficas

  1. Benjafield, A. V., Ayas, N. T., Eastwood, P. R., et al. (2019). Estimation of the global prevalence and burden of obstructive sleep apnoea: a literature-based analysis. The Lancet Respiratory Medicine, 7(8), 687–698. https://doi.org/10.1016/S2213-2600(19)30198-5
  2. Chung, F., Yegneswaran, B., Liao, P., et al. (2008). STOP questionnaire: a tool to screen patients for obstructive sleep apnea. Anesthesiology, 108(5), 812–821. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18431116/
  3. Yeghiazarians, Y., Jneid, H., Tietjens, J. R., et al. (2021). Obstructive Sleep Apnea and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation, 144(3), e56–e67. https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000000988
  4. Kapur, V. K., Auckley, D. H., Chowdhuri, S., et al. (2017). Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, 13(3), 479–504. https://doi.org/10.5664/jcsm.6506