Insónia: O Que É e O Que Fazer

Já tive noites más. Toda a gente tem. Mas há diferença entre dormir mal antes de uma reunião importante e aquilo que, lá para a terceira semana seguida a contar carneirinhos às 3 da manhã, comecei a desconfiar que era outra coisa. Fui perceber exactamente onde está essa linha — e o que a ciência diz que ajuda a sério, para além do genérico "tenta relaxar".

Resposta directa: insónia não é uma má noite ocasional. Clinicamente, é dificuldade persistente a adormecer, a manter o sono ou a acordar cedo demais sem voltar a adormecer, pelo menos 3 noites por semana, com impacto real no dia seguinte (cansaço, irritabilidade, dificuldade em concentrar).[1] Se isto te soa familiar há semanas, vale a pena ler até ao fim.

O Que Conta Como Insónia, Clinicamente?

A linha divisória mais importante não é "quão mal dormi ontem" — é duração. As guidelines europeias de referência distinguem dois tipos:[1]

O critério do "impacto diurno" é o que separa insónia de simplesmente seres uma pessoa que dorme pouco e não se importa. Se dormes 6 horas e funcionas bem, não é insónia — é só o teu padrão. Se dormes 6 horas e andas exausto, irritado e sem concentração, isso conta.

Jovem deitada na cama, de noite, com o telemóvel na mão e ar ansioso — sem conseguir adormecer

Portugal Dorme Mal — os Números

Um inquérito da Sociedade Portuguesa de Pneumologia a mais de 2.180 pessoas, feito para o Dia Mundial do Sono, deu um retrato honesto (não é um estudo epidemiológico rigoroso — é um inquérito online, com o viés que isso implica — mas o sinal é forte):[4]

Não estás sozinho — mas isso também não é motivo para não fazeres nada.

O Que Costuma Causar Isto?

Na maioria dos casos, a insónia não aparece do nada. As causas mais comuns, segundo o Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue dos EUA (NHLBI), são:[3]

Já escrevi sobre isto em detalhe: se procuras hábitos concretos para ajudar a prevenir a insónia antes de ela se instalar, tenho um guia completo com os 7 hábitos de higiene do sono que fazem mais diferença. Este artigo assume que já os conheces (ou que já os tentaste) e foca-se no "e agora, o que faço a seguir?".

Já Tenho Boa Higiene do Sono e Não Chega — E Agora?

Aqui vai a parte que a maioria dos artigos de sono evita dizer: para insónia crónica, a higiene do sono sozinha não costuma chegar. A American Academy of Sleep Medicine, na sua guideline clínica mais recente, dá a recomendação mais forte possível ("strong recommendation") à terapia cognitivo-comportamental para a insónia (TCC-I) — e explicitamente não recomenda higiene do sono isolada como tratamento único para insónia crónica em adultos.[2]

A TCC-I é um programa estruturado, normalmente com um psicólogo especializado em sono, que combina algumas técnicas concretas:

Em Portugal, o ponto de entrada mais realista é uma consulta do sono — que pode encaminhar para TCC-I ou avaliar se há outra causa a tratar primeiro.

Frascos de medicação e comprimidos em cima de uma mesa — a conversa sobre insónia e medicação exige cautela

E os Medicamentos?

A norma da Direcção-Geral da Saúde sobre o tratamento da ansiedade e insónia com benzodiazepinas é clara: estes medicamentos têm indicação para insónia patológica, não devem ser usados por rotina em casos ligeiros a moderados, e antes de prescrever é preciso excluir outras causas físicas ou de abuso de substâncias.[5]

⚠️ Não é para te automedicares: Triticum e Clonazepam são medicamentos sujeitos a receita médica — mas isso não significa que sejam a resposta certa só porque um médico os prescreve a pedido. Nunca uses um comprimido que sobrou de uma receita antiga ou de outra pessoa, e não peças nenhum dos dois como atalho sem avaliação da causa. Lê primeiro os artigos dedicados — o que diz a ciência sobre o Triticum e Clonazepam: funciona e é seguro? — a medicação trata o sintoma; raramente resolve a causa.

Quando Procurar Ajuda?

Regra prática: se a dificuldade em dormir já dura 3 meses ou mais, acontece 3 ou mais noites por semana, e sentes o impacto no dia seguinte, isso já não é "uma fase" — é insónia crónica, e vale a pena marcar uma consulta do sono em vez de continuar a tentar sozinho.

Antes de Tudo, Confirma as Fundações

TCC-I, hábitos, rotina — tudo isso ajuda menos se o colchão te acorda a meio da noite. Vale a pena confirmar que não é essa a parte mais simples de resolver.

Ver Colchões Moka

Conclusão

Insónia ocasional é normal e quase sempre passa sozinha. Insónia crónica — 3 meses, 3 noites por semana, com impacto real no dia a dia — é outra conversa, e a boa notícia é que há tratamento com evidência forte (TCC-I), não só paliativos. Higiene do sono é a base; se já a tens e continuas sem dormir, o passo a seguir não é desistir, é procurar ajuda especializada.

Para continuares a tratar do sono: revê os 7 hábitos de higiene do sono, considera se o magnésio faz sentido como complemento de baixo risco, e não adies a consulta do sono se isto já dura há meses. Tens tudo aqui no Saúde e Sono.

Dorme bem — e se precisares de ajuda a sério, já sabes por onde começar. 😴

Referências Bibliográficas

  1. Riemann, D., Baglioni, C., Bassetti, C., et al. (2017). European guideline for the diagnosis and treatment of insomnia. Journal of Sleep Research, 26(6), 675–700. https://doi.org/10.1111/jsr.12594
  2. Edinger, J. D., Arnedt, J. T., Bertisch, S. M., et al. (2021). Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, 17(2), 255–262. https://doi.org/10.5664/jcsm.8986
  3. National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI), NIH. Insomnia — Causes and Risk Factors. https://www.nhlbi.nih.gov/health/insomnia/causes
  4. Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), Comissão de Trabalho de Patologia Respiratória do Sono. (2023). Inquérito sobre hábitos de sono dos portugueses (n=2.184). sppneumologia.pt — inquérito online, não estudo epidemiológico controlado.
  5. Direção-Geral da Saúde (DGS). (2011, actualizada 2015). Norma n.º 055/2011: Tratamento sintomático da ansiedade e insónia com benzodiazepinas e fármacos análogos. normas.dgs.min-saude.pt