Há um frasco de melatonina esquecido numa gaveta em quase todas as casas que já passaram por uma viagem longa ou uma fase má de sono. Compra-se sem receita, em qualquer farmácia ou supermercado, e a promessa é sempre a mesma: uma pastilha antes de deitar e o sono resolve-se. Fui perceber o que a ciência diz sobre isto, e a resposta é mais interessante (e mais estreita) do que o marketing sugere.
Resposta directa: a melatonina ajuda a adormecer mais depressa, mas o efeito é modesto (cerca de 7 minutos a menos de latência do sono numa meta-análise com quase 1700 pessoas).[1] Funciona muito melhor a acertar o relógio biológico, em jet lag ou turnos, do que como sedativo para insónia em geral. E doses baixas costumam funcionar tão bem como as altas, ou melhor.
A Melatonina Não É Um Sedativo (Mesmo Que Pareça)
O erro mais comum é tratar a melatonina como se fosse uma versão natural de um comprimido para dormir. Não é isso que ela faz no corpo. À medida que a luz desaparece ao final do dia, a glândula pineal começa a libertar melatonina, e essa subida é o sinal que diz ao cérebro "está a aproximar-se a noite". Ajusta o relógio biológico, não "desliga" a mente.
Os investigadores chamam a isto um efeito cronobiótico: uma substância capaz de mudar a fase do relógio biológico interno, distinto de um efeito sedativo clássico.[4] É por isso que a melatonina brilha mais em situações onde o relógio está desalinhado com o horário local (jet lag, trabalho por turnos, cegueira) do que em insónia comum, onde o relógio já está bem ajustado e o problema é outro.
Funciona Para Adormecer Mais Depressa?
Sim, mas com um efeito mais pequeno do que a maioria das pessoas espera. Uma meta-análise que juntou 19 ensaios clínicos e quase 1700 participantes encontrou uma redução média de 7 minutos na latência do sono (o tempo até adormecer), além de um pequeno aumento no tempo total de sono e na qualidade percebida.[1] Os próprios autores são directos sobre isto: o benefício absoluto é menor do que o de outros tratamentos para insónia, mas a melatonina tem um perfil de efeitos secundários tão benigno que continua a valer a pena considerá-la.[1]
Ou seja, é uma ajuda real, não uma fantasia de marketing. Só não é a "pastilha mágica" que apaga a insónia de um dia para o outro.
A dose que a maioria ignora: mais nem sempre é melhor. Uma revisão sistemática recente, com meta-análise dose-resposta, mostrou que o efeito na latência do sono cresce até cerca de 4 mg por dia e depois estabiliza, sem ganho adicional relevante em doses mais altas.[2] Outros estudos de dose mostram melhorias consistentes já com 0,5 a 3 mg, tomados 30 a 60 minutos antes de deitar.
Parte da explicação para as doses altas nos rótulos está na absorção: a melatonina tomada por via oral passa primeiro pelo fígado antes de chegar à corrente sanguínea, e esse "primeiro processamento" degrada uma grande parte dela. Um estudo clássico mediu uma biodisponibilidade oral de apenas cerca de 15% para doses de 2 e 4 mg, ou seja, só uma pequena fracção do que engoles chega mesmo a circular no corpo.[8] Isso explica em parte porque é que alguns fabricantes sobem para 5 ou 10 mg por comprimido, mas não significa que precises dessa dose: a maioria dos ensaios clínicos que mostram benefício usa muito menos.
Jet Lag e Turnos: Onde a Melatonina Realmente Brilha
Se há uma situação em que a evidência é sólida, é esta. Uma revisão Cochrane, com dez ensaios controlados por placebo, concluiu que a melatonina é "notavelmente eficaz" a reduzir o jet lag em voos que atravessam cinco ou mais fusos horários, com uso ocasional e de curta duração considerado seguro.[3] O esquema mais eficaz identificado foi tomar entre 0,5 e 5 mg perto da hora de deitar local, no dia de chegada, repetindo nos dias seguintes.[3] Tomá-la antes de viajar, ou a meio do dia, não ajuda, e pode até piorar o desfasamento.
O mesmo raciocínio aplica-se, com mais cautela, a quem trabalha por turnos rotativos: a melatonina pode ajudar a sinalizar ao corpo quando é "noite" mesmo que o relógio de parede diga outra coisa, mas o efeito varia bastante de pessoa para pessoa e não substitui um horário de sono protegido.
Regulação em Portugal: Suplemento ou Medicamento?
Aqui há uma distinção que vale a pena conhecer antes de comprar. Em Portugal, produtos com melatonina em doses mais altas (entre 1 e 5 mg) são classificados como medicamentos e vendidos só com receita médica. Já os suplementos alimentares de venda livre, sem receita, estão limitados a 1 mg por toma diária, segundo o parecer técnico do INFARMED sobre este tema, e não se destinam a crianças.[7]
Na prática, é comum encontrar-se suplementos à venda com quantidades acima desse limite, numa zona cinzenta que várias associações de defesa do consumidor já assinalaram como problemática.[7] Vale a pena ler o rótulo antes de comprar, e não assumir que "suplemento" é sinónimo de dose baixa e segura.
Vale a Pena Experimentar?
Para insónia comum, sem componente de desalinhamento do relógio biológico, a melatonina é uma opção de baixo risco mas de efeito modesto: pode ajudar um pouco, não é a solução principal. Para jet lag ou turnos, a evidência é mais forte e o benefício mais claro. Em qualquer dos casos, a dose mais baixa que funcionar (0,5 a 3 mg) costuma ser a escolha mais sensata, tomada perto da hora de deitar.
E vale sempre a pena lembrar: a melatonina ajusta o sinal, não substitui os hábitos. Se a rotina de sono anda desorganizada, cafeína a mais ou luz de ecrãs até tarde, é aí que está a maior parte do problema, e nenhuma pastilha resolve isso sozinha.
O Sinal Certo, na Cama Errada, Não Chega
Podes acertar o relógio biológico na perfeição, mas se o colchão te acorda a meio da noite, o sono continua a fugir. Trata das fundações a sério.
Ver ColchõesConclusão
A melatonina funciona, mas para o que foi desenhada: ajustar o relógio biológico, não apagar a mente. Em jet lag e turnos, a evidência é sólida. Em insónia comum, o efeito é real mas pequeno. A dose baixa (0,5 a 3 mg) costuma bastar, e vale a pena ter atenção redobrada com crianças e na gravidez, onde a cautela ainda é a regra.
Para fechar o trio de suplementos mais populares para dormir, já escrevi sobre o magnésio e o sono e sobre que alimentos ajudam (e quais atrapalham) o sono. Se o problema é mesmo insónia persistente e não um relógio desalinhado, vale a pena ler sobre o que fazer quando a higiene do sono já não chega. Tens tudo aqui no Saúde e Sono.
Dorme bem, no fuso certo. 😴