Sono REM e Sono Profundo: As Fases Explicadas

Se usas uma smartwatch ou uma app de sono, já viste aquele gráfico colorido de manhã: "2h14 de sono profundo", "1h38 de REM", "sono leve"... e provavelmente já te perguntaste o que é que isso quer dizer de verdade, e se devias estar preocupado com os números. Fui perceber o que a ciência diz sobre estas fases, e porque é que, muitas vezes, contam mais do que as horas totais na cama.

Resposta directa: numa noite normal, passamos cerca de 75% do tempo em sono não-REM (a maior parte em sono leve, uma fatia menor em sono profundo) e 20-25% em sono REM, distribuídos por 4 a 6 ciclos de cerca de 90 minutos cada.[1] O sono profundo concentra-se na primeira metade da noite; o REM domina a segunda.

Como Funciona um Ciclo de Sono?

Cada ciclo passa por quatro fases, sempre pela mesma ordem: N1 (sono muito leve, a transição), N2 (sono leve — cerca de metade da noite inteira), N3 (sono profundo, também chamado de ondas lentas) e depois REM (a fase dos sonhos vívidos).[1] Um ciclo completo demora entre 90 e 120 minutos, e repete-se 4 a 6 vezes por noite, mas os ciclos não são todos iguais.

No início da noite, os ciclos têm mais sono profundo e quase nada de REM. Conforme a noite avança, o sono profundo vai diminuindo e o REM vai ocupando cada vez mais espaço: motivo pelo qual acordar muito cedo (ou dormir poucas horas) corta desproporcionalmente o REM, não o sono profundo.

Pessoa a dormir profundamente num quarto escuro e fresco, ambiente ideal para sono de ondas lentas

O Que É o Sono Profundo (Fase N3) e Porque Importa?

O sono profundo é a fase mais "reparadora" fisicamente. É quando o corpo liberta a maior parte da hormona do crescimento, a actividade do sistema nervoso muda de "alerta" (simpático) para "descanso" (parassimpático), e há evidência de que interrompê-lo prejudica a regulação da glicose e da sensibilidade à insulina.[2] É também a fase com ligação mais forte à sensação de sono contínuo e reparador: mais sono profundo tende a significar menos despertares durante a noite.[2]

Quantas horas de sono profundo devemos ter? Normalmente, o N3 ocupa entre 15% e 20% do tempo total de sono.[1] Para quem dorme as 7 a 9 horas recomendadas, isso traduz-se em aproximadamente 1 a 2 horas de sono profundo por noite. Não há um número exacto "certo" para todos, e a quantidade varia de noite para noite consoante o desgaste físico do dia.

E o Sono REM?

Se o sono profundo trata do corpo, o REM parece tratar mais da mente. É a fase associada aos sonhos mais vívidos, e a evidência aponta para um papel importante no processamento de memórias emocionais: o cérebro parece usar o REM para consolidar experiências com carga emocional, de forma distinta de memórias neutras.[3] Dito isto, os próprios investigadores admitem que ainda há partes deste mecanismo por esclarecer — não é uma ciência 100% fechada, e provavelmente nunca será. Prefiro dizer isto com todas as letras do que fingir uma certeza sobre o cérebro que ninguém tem, aqui ou em quase mais nada.[3]

Como o REM se concentra na segunda metade da noite, cortar o sono pela manhã (o despertador a tocar às 6h em vez das 7h) tende a roubar precisamente esta fase, mesmo que a diferença pareça só "uma hora".

Homem a acordar descansado na cama, depois de completar os ciclos de sono da noite

E as Apps e Smartwatches Sabem Mesmo Que Fase É?

Voltando à pergunta que abriu este artigo: os números que a tua app mostra de manhã são uma estimativa, não uma medição directa da actividade cerebral. Por trás do número está normalmente uma combinação simples: um acelerómetro que regista quanto te mexes (quieto durante muito tempo sugere sono profundo; muito movimento sugere sono leve ou já acordado) e um sensor óptico no pulso que mede o ritmo cardíaco e a sua variabilidade. Um algoritmo cruza os dois padrões e, por comparação com milhares de noites de polissonografia real, tenta adivinhar em que fase estás. Mas continua a ser uma adivinha treinada, não uma leitura directa.

O padrão de referência continua a ser a polissonografia: o exame feito num laboratório do sono, com eléctrodos a medir ondas cerebrais reais. Um estudo multicêntrico de 2023, que testou 11 dispositivos de consumo (relógios, anéis, sensores de cama) contra a polissonografia, encontrou precisão bastante variável entre marcas. De forma consistente, os dispositivos identificam melhor o REM do que o sono profundo especificamente.[5]

Não é motivo para deitares o relógio fora. A tendência ao longo de semanas (mais ou menos horas, mais ou menos despertares) costuma ser um sinal útil. Mas se o número exacto de "sono profundo" de ontem à noite não bater certo com as percentagens acima, o problema pode estar mais no relógio do que em ti.

Uma função que vale mesmo a pena activar: muitos relógios e apps de sono têm um "despertador inteligente": em vez de tocar exactamente à hora que definires, acorda-te dentro de uma janela (normalmente 20 a 30 minutos antes) assim que detectar que entraste em sono leve, o início natural de um novo ciclo de ~90 minutos. Faz sentido fisiológico: acordar a meio do sono profundo produz muito mais confusão e sonolência ao levantar (a chamada "inércia do sono") do que acordar em sono leve ou REM.[6] É provavelmente a função mais subestimada do teu relógio.

Então as Horas Totais Não Importam?

Importam, só que não são a história toda. O consenso da American Academy of Sleep Medicine e da Sleep Research Society continua a recomendar 7 ou mais horas de sono por noite para adultos, com base na revisão de mais de 5.300 estudos científicos: dormir 6 horas ou menos, de forma regular, já não chega para manter a saúde e a segurança.[4] As horas continuam a ser a base.

Mas a qualidade soma-se às horas, não as substitui. É possível passar 8 horas na cama e sair com pouco sono profundo: álcool antes de deitar, apneia do sono ou despertares frequentes fragmentam as fases mais reparadoras, mesmo que o "tempo total na cama" pareça suficiente no relógio. Se ressonas alto ou tens pausas na respiração, vale a pena ler sobre os sintomas de apneia do sono: é uma das causas mais comuns de sono fragmentado sem que a pessoa dê por isso.

Porque É Que Envelhecer Muda Isto

O sono profundo diminui de forma natural com a idade. É uma das razões pelas quais muitas pessoas mais velhas sentem que dormem "mais leve" do que dormiam há 20 anos, mesmo passando o mesmo número de horas na cama. Não é imaginação; é fisiologia normal, não uma falha a corrigir.

A explicação mais aceite tem a ver com o próprio córtex cerebral. As ondas lentas do sono profundo nascem sobretudo em regiões frontais, e é precisamente aí que o córtex vai naturalmente perdendo espessura ao longo da vida adulta. Um estudo que comparou ressonâncias magnéticas de adultos jovens (cerca de 23 anos) e mais velhos (cerca de 60 anos) mostrou que esse afinamento cortical explica grande parte da redução do sono de ondas lentas entre as duas idades.[7] Não é um interruptor que se desliga de repente. É um declínio gradual, ligado à estrutura do próprio cérebro a envelhecer.

As Fases Contam-se Menos Se Acordares a Meio

Um colchão que já não te suporta bem é uma das causas mais comuns de despertares a meio da noite, e cada despertar corta um ciclo antes de ele terminar.

Ver
Colchões Moka

Conclusão

O sono não é um bloco uniforme. É uma sequência de fases com funções diferentes: o sono profundo repara o corpo, o REM processa a mente, e ambos se distribuem de forma desigual ao longo da noite. As 7 a 9 horas recomendadas continuam a ser a base, mas dormir essas horas de forma fragmentada (por stress, ruído, apneia ou um colchão desconfortável) pode deixar-te com menos das fases que realmente importam.

Se sentes que dormes as horas certas mas continuas cansado, vale a pena perceber se é insónia a impedir-te de completar os ciclos, ou rever os 7 hábitos de higiene do sono que ajudam o corpo a passar por todas as fases sem interrupções. Tens tudo aqui no Saúde e Sono.

Dorme bem: todas as fases, não só as horas. 😴

Referências Bibliográficas

  1. Patel, A. K., Reddy, V., Shumway, K. R., & Araujo, J. F. (2024). Physiology, Sleep Stages. In StatPearls. StatPearls Publishing. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK526132/
  2. Dijk, D. J. (2009). Regulation and functional correlates of slow wave sleep. Journal of Clinical Sleep Medicine, 5(2 Suppl), S6–S15. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2824213/
  3. Tempesta, D., Socci, V., De Gennaro, L., & Ferrara, M. (2018). Sleep and emotional processing. Sleep Medicine Reviews, 40, 183–195. https://doi.org/10.1016/j.smrv.2017.12.005
  4. Watson, N. F., Badr, M. S., Belenky, G., et al. (2015). Recommended Amount of Sleep for a Healthy Adult: A Joint Consensus Statement of the American Academy of Sleep Medicine and Sleep Research Society. Journal of Clinical Sleep Medicine, 11(6), 591–592. https://doi.org/10.5664/jcsm.4758
  5. Lee, T., Cho, Y., Cha, K. S., et al. (2023). Accuracy of 11 wearable, nearable, and airable consumer sleep trackers: Prospective multicenter validation study. JMIR mHealth and uHealth, 11, e50983. https://doi.org/10.2196/50983
  6. Tassi, P., & Muzet, A. (2000). Sleep inertia. Sleep Medicine Reviews, 4(4), 341–353. https://doi.org/10.1053/smrv.2000.0098
  7. Dubé, J., Lafortune, M., Bedetti, C., Bouchard, M., Gagnon, J. F., Doyon, J., Evans, A. C., Lina, J.-M., & Carrier, J. (2015). Cortical thinning explains changes in sleep slow waves during adulthood. Journal of Neuroscience, 35(20), 7795–7807. https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.3956-14.2015