Portugal É o 2.º País do Mundo Que Mais Toma Zolpidem. O Que Há a Saber?

O zolpidem (vendido como Stilnox, Cymerion e genéricos) é um comprimido para dormir, indicado para insónias graves e por períodos curtos.[1] Ajuda a adormecer, mas traz riscos reais, como sonolência no dia seguinte e comportamentos estranhos durante o sono, e por isso não é a primeira escolha: a terapia cognitivo-comportamental para a insónia (TCC-I) vem primeiro.[2]

Mulher sentada na cama, de noite, a segurar um comprimido e um copo de água

Aviso importante: Este artigo é informativo e não substitui aconselhamento médico. O zolpidem é um medicamento: não o inicies, alteres a dose ou o pares por tua conta, e não tomes o de outra pessoa. Em caso de dúvida, fala com o teu médico ou farmacêutico.

O Que É o Zolpidem e Para Que Serve

O zolpidem pertence ao grupo dos chamados "Z-drugs": hipnóticos que não são benzodiazepinas, mas actuam de forma parecida, com efeito sedativo. O Infarmed descreve-o como um hipnótico semelhante às benzodiazepinas, que deve ser reservado para insónias graves, incapacitantes ou causadoras de extrema ansiedade, e usado em tratamentos de curta duração.[1] Em Portugal, os medicamentos com zolpidem são o Stilnox, o Cymerion e os respectivos genéricos.[1]

Repara no que isto significa: não foi pensado para "dormir melhor" de forma geral, nem para tomar durante meses. É uma ferramenta para uma fase aguda, enquanto se trata a causa.

Portugal e o Zolpidem: o Que Dizem os Números

Em 2022, Portugal registou o segundo maior consumo mundial de zolpidem, atrás do Uruguai, entre os 64 países e territórios que enviaram dados à Junta Internacional de Fiscalização de Estupefacientes (INCB). O relatório foi divulgado em Março de 2024, e a média de consumo na Europa foi "significativamente superior" à das outras regiões.[3]

Como ler este número: o ranking mede quanto se consome, não se o consumo é adequado. Não diz quantas dessas tomas foram bem indicadas. Mas é um bom motivo para te fazeres uma pergunta simples, se tomas zolpidem: há quanto tempo? Se a resposta é "meses", vale a pena falar com o médico sobre alternativas.

Funciona?

Funciona para o que promete, com ressalvas. A Academia Americana de Medicina do Sono (AASM) sugere que os médicos possam usar zolpidem para a insónia de adormecimento e de manutenção, mas com uma recomendação fraca: isso significa menor certeza sobre os resultados, não que não funcione.[4] E o Colégio Americano de Médicos vai mais longe na ordem das coisas: recomenda a TCC-I como tratamento inicial de todos os adultos com insónia crónica, e deixa os medicamentos para uma decisão partilhada, por períodos curtos, quando a TCC-I sozinha não resultou.[2]

Há uma coisa que a palavra "funciona" esconde: quando o comprimido sai da equação, o problema de base continua lá, seja ele hábitos, ansiedade, dor, depressão ou até apneia do sono, que nenhum hipnótico resolve. Por isso a pergunta mais útil não é só "o zolpidem funciona?", é "porque é que não estou a dormir?".

Os Riscos Que Não Se Vêem na Caixa

Frascos de comprimidos sobre uma mesa de madeira, com uma pessoa desfocada ao fundo

Sonolência no dia seguinte

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) concluiu em 2014 que o balanço benefício-risco se mantinha positivo, mas reforçou as regras para reduzir o risco de reacções lentas e perda de atenção na manhã seguinte, incluindo ao conduzir: dose máxima de 10 mg por dia (5 mg em idosos e em pessoas com a função do fígado reduzida), numa única toma, mesmo antes de deitar, sem repetir a dose na mesma noite, e sem conduzir nem fazer tarefas que exijam atenção até 8 horas depois.[5]

Comportamentos complexos durante o sono

Sonambulismo, conduzir a dormir e outras actividades sem estar completamente acordado: em 2019, a agência americana FDA identificou 66 casos de comportamentos complexos durante o sono com zolpidem, eszopiclone e zaleplon, em 26 anos, que causaram ferimentos graves, incluindo mortes. Podem acontecer com ou sem história prévia, mesmo nas doses mais baixas recomendadas e depois de uma única toma, e a FDA passou a exigir um aviso de caixa negra e a contra-indicação para quem já teve um episódio destes.[6] Se isto te acontecer, ou a quem dorme contigo, contacta o médico de imediato.

Quem precisa de mais cuidado

A própria EMA fixa uma dose mais baixa, de 5 mg, para os idosos e para quem tem a função do fígado reduzida.[5] Se tomas outros medicamentos que dão sono (ou álcool), os efeitos podem somar-se, por isso diz ao médico e ao farmacêutico tudo o que tomas, incluindo suplementos.

Se Já Tomas Zolpidem

Perguntas que vale a pena levar à próxima consulta: Para que problema exacto o estou a tomar? Durante quanto tempo? Há uma alternativa sem medicação, como a TCC-I? O que faço se tiver uma noite má? Há algo do que já tomo que não combine?

O Que a Ciência Põe Primeiro

Médico a conversar com uma doente numa consulta do sono

A recomendação de primeira linha para a insónia crónica não é um comprimido, é a TCC-I.[2] Se a tua insónia já dura semanas, o artigo Insónia: o que é e o que fazer explica quando a higiene do sono já não chega, e o guia da consulta do sono mostra como chegar a um especialista, no SNS ou no privado. Entretanto, os 7 hábitos de higiene do sono são a base de qualquer tratamento. E se queres comparar com outros fármacos usados para dormir, tenho artigos sobre o Triticum (Trazodona) e o Clonazepam.

Antes do Comprimido, a Cama

Um colchão desconfortável é uma das causas mais simples (e mais baratas de resolver) de uma noite mal dormida. Vem ver as opções da Moka.

Ver Colchões

Conclusão

O zolpidem pode ajudar numa fase aguda, mas é um medicamento para o curto prazo, com riscos que merecem respeito. Respeitar a dose, tomá-lo só antes de deitar, não conduzir de manhã e saber que existe o risco de comportamentos complexos durante o sono são os mínimos. E se o estás a tomar há meses, o passo mais útil é uma conversa com o teu médico sobre a TCC-I e outras alternativas. Tens tudo aqui no Saúde e Sono.

Dorme bem! 😴

Referências Bibliográficas

  1. INFARMED (2013). Circular Informativa n.º 168/CD/8.1.7, de 15/07/2013: Zolpidem, início da revisão de segurança. Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. https://www.infarmed.pt
  2. Qaseem, A., Kansagara, D., Forciea, M. A., Cooke, M., & Denberg, T. D. (2016). Management of chronic insomnia disorder in adults: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Annals of Internal Medicine, 165(2), 125–133. https://doi.org/10.7326/M15-2175
  3. Observador (5 de Março de 2024). Portugal regista o 2.º maior consumo do mundo de medicamentos para insónias (dados de 2022 do relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Estupefacientes, INCB). https://observador.pt
  4. Sateia, M. J., Buysse, D. J., Krystal, A. D., Neubauer, D. N., & Heald, J. L. (2017). Clinical practice guideline for the pharmacologic treatment of chronic insomnia in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, 13(2), 307–349. https://doi.org/10.5664/jcsm.6470
  5. European Medicines Agency (2014). PRAC recommends product information of zolpidem be updated with new advice to minimise the risk of next-morning impaired driving ability and mental alertness. EMA, Londres. https://www.ema.europa.eu
  6. U.S. Food and Drug Administration (2019). Certain prescription insomnia medicines: new Boxed Warning due to risk of serious injuries caused by sleepwalking, sleep driving and engaging in other activities while not fully awake. FDA Drug Safety Communication, 30 de Abril de 2019. https://www.fda.gov