Medicamentos para Dormir em Portugal: O Que Funciona, o Que Não Funciona e o Que Vem Primeiro

Em Portugal há medicamentos para dormir com e sem receita, mas nenhum deles é a primeira escolha para a insónia que dura há meses: a guideline europeia põe primeiro a terapia cognitivo-comportamental para a insónia (TCC-I), e deixa os comprimidos para quando esta não chega, quase sempre por poucas semanas.[1] Os "mais fortes", com receita, funcionam no curto prazo; os de venda livre têm, na maioria, pouca evidência a seu favor.[2]

Senhor de idade a ser atendido por uma farmacêutica ao balcão da farmácia

Aviso importante: Este artigo é informativo e não substitui aconselhamento médico. Não comeces, não mudes a dose nem pares nenhum medicamento por tua conta, e não tomes o de outra pessoa. Se tomas um medicamento para dormir há semanas ou meses, fala com o teu médico antes de alterar seja o que for. Em caso de dúvida, pergunta ao farmacêutico.

Primeiro, Um Retrato do País

Se tens um frasco destes na mesa-de-cabeceira, estás bem acompanhado. Segundo o Infarmed, Portugal é um dos países com maior consumo de ansiolíticos, hipnóticos e sedativos, um grupo feito sobretudo de benzodiazepinas e medicamentos parecidos. A maior parte das pessoas a quem o SNS os dispensa são mulheres entre os 55 e os 79 anos.[4] E no caso do zolpidem, em 2022 Portugal teve o segundo maior consumo do mundo, logo atrás do Uruguai, entre os 64 países e territórios com dados.[5]

Não escrevo isto para assustar ninguém. Muitas destas receitas foram bem passadas e ajudaram numa fase difícil. Mas quando um país inteiro dorme à base de comprimidos, vale a pena perceber o que cada um faz, para quem é, e o que a ciência recomenda antes.

O Que Vem Antes de Qualquer Comprimido?

A guideline europeia de 2023, assinada por 45 especialistas europeus (com participação portuguesa, de um centro de medicina do sono do Porto), é clara: a TCC-I é o tratamento de primeira linha da insónia crónica em adultos de qualquer idade, mesmo com outras doenças, presencial ou em formato digital. Só quando não resulta o suficiente é que se propõe um medicamento.[1]

A TCC-I não é "dormir mais cedo e beber chá". É um programa de algumas semanas que mexe no horário de sono, na relação com a cama e nos pensamentos que te mantêm acordado. Expliquei-a no artigo Insónia: o que é e o que fazer, e o guia da consulta do sono mostra como chegar a quem a faz, no SNS ou no privado.

Uma insónia de duas noites não é uma insónia crónica. Uma má fase depois de um susto, de um bebé novo ou de uma semana de trabalho louca costuma passar sozinha. Quando dura mais de três meses, com pelo menos três noites más por semana, já merece conversa com o médico.[1]

Sem Receita: O Que Há na Farmácia

Melatonina

É o campeão de vendas e o que menos promete. A guideline europeia não recomenda a melatonina de libertação rápida (a dos suplementos) para tratar a insónia. Só admite a melatonina de libertação prolongada, que é um medicamento, em pessoas a partir dos 55 anos e até 3 meses.[1] Numa grande comparação de 30 tratamentos, a melatonina não mostrou benefício que se note na qualidade do sono.[2] Onde ela pode fazer sentido (jet lag, horários trocados) está no artigo Melatonina: funciona mesmo?

Anti-histamínicos (doxilamina)

A doxilamina vende-se sem receita para insónias ocasionais e, no curto prazo, funciona melhor do que um placebo.[2] Ainda assim, a guideline europeia não recomenda os anti-histamínicos para tratar a insónia.[1] O problema está no dia seguinte: a sonolência pode durar até de manhã, e nos mais velhos estes medicamentos estão na lista dos que é melhor evitar, pelos efeitos anticolinérgicos, como confusão, boca seca e obstipação.[6] Se a usares, é para uma ou outra noite, nunca como hábito, e lê o folheto até ao fim.

Plantas, chás e magnésio

Valeriana, passiflora, camomila: são as opções "naturais" e as mais simpáticas, mas a guideline europeia não recomenda os fitoterápicos para tratar a insónia,[1] e a americana desaconselha especificamente a valeriana.[3] Isso não quer dizer que um chá quente não ajude a criar uma rotina de deitar. Quer dizer que não é tratamento. Vê o que sobra de cada uma em chá para dormir e em magnésio e sono.

Caixas e frascos de comprimidos em cima de uma mesa, com uma pessoa desfocada ao fundo

Com Receita: os Tais "Medicamentos Fortes"

Quando alguém procura "medicamentos para dormir fortes", normalmente está a falar destes. São os que têm efeito mais claro e, ao mesmo tempo, os que pedem mais cuidado.

Benzodiazepinas e "fármacos Z" (zolpidem)

São os mais usados em Portugal. Na grande comparação publicada na The Lancet, as benzodiazepinas e o zolpidem melhoraram o sono no curto prazo mais do que o placebo e mais do que a melatonina, mas também deram mais efeitos secundários.[2] Por isso a guideline europeia indica-os para tratamentos curtos, até 4 semanas, e só em alguns casos por mais tempo, pesando prós e contras.[1]

Nos mais velhos, os critérios de Beers (a lista de referência dos medicamentos a evitar depois dos 65 anos) desaconselham tanto as benzodiazepinas como os fármacos Z, pelo risco de alterações de memória, quedas, fracturas e acidentes de viação.[6] Tenho artigos próprios sobre o Zolpidem (Stilnox) e o Clonazepam.

Não pares de repente. Se tomas uma benzodiazepina ou um fármaco Z há semanas ou meses, parar de um dia para o outro pode trazer insónia de ressaca, ansiedade e, em alguns casos, sintomas mais sérios. A redução deve ser planeada com o médico. E nunca os mistures com álcool: os efeitos somam-se.

Antidepressivos sedativos em dose baixa (trazodona, o Triticum)

O Triticum (trazodona) é um antidepressivo que, em dose baixa, se usa muito para dormir. A guideline europeia admite os antidepressivos sedativos em dose baixa para tratamentos curtos, até 4 semanas, com um grau de evidência mais fraco do que o das benzodiazepinas.[1] A americana sugere, com recomendação fraca, não usar a trazodona na insónia crónica.[3] E a comparação da The Lancet concluiu que pode ser eficaz no curto prazo, mas é mal tolerada ou faltam dados sobre o longo prazo.[2] Tudo o que precisas de saber está no guia do Triticum e em os efeitos do Triticum no sono.

Antagonistas da orexina (a classe mais recente)

Em vez de "desligarem" o cérebro, estes medicamentos bloqueiam a orexina, uma das substâncias que nos mantêm acordados. A guideline europeia admite-os por períodos até 3 meses, ou mais em alguns casos, e o daridorexant é o exemplo que cita.[1] São promissores, mas ainda há poucos dados de segurança a longo prazo.[2] Se te interessam, é conversa para o médico.

Resumo em 30 Segundos

Perguntas Para Levar à Consulta

Médico a conversar com um doente numa consulta sobre o sono

Se estás a pensar começar, ou já tomas há algum tempo, estas perguntas poupam muitas voltas: Qual é a causa da minha insónia? Durante quanto tempo devo tomar isto? Há alternativa sem medicação, como a TCC-I? O que faço numa noite má? Posso conduzir de manhã? Combina com o que já tomo? E lembra-te de que o farmacêutico também responde a dúvidas, sem marcação.

Também vale a pena olhar para o básico, que nenhum comprimido resolve: horários, cafeína, ecrãs, um quarto escuro e fresco, e uma cama onde o corpo descanse a sério. Os 7 hábitos de higiene do sono são a base de qualquer tratamento.

O Que Nenhum Comprimido Resolve

Um colchão gasto ou desconfortável não se trata com medicação. Se acordas com dores ou às voltas, vale a pena começar pela cama. Vem ver as opções da Moka.

Ver Colchões

Conclusão

Os medicamentos para dormir têm o seu lugar, mas é um lugar curto e acompanhado. Os de venda livre prometem mais do que a ciência confirma; os de receita funcionam no curto prazo e pedem respeito pela dose, pelo tempo e pela idade. E se a insónia já é velha conhecida, o passo que mais vale é pedir ao médico a TCC-I. Para cada medicamento em detalhe, começa pelo Triticum, pelo Zolpidem ou pela Melatonina, e tens o resto aqui no Saúde e Sono.

Dorme bem! 😴

Referências Bibliográficas

  1. Riemann, D., Espie, C. A., Altena, E., Arnardottir, E. S., Baglioni, C., Bassetti, C. L. A., et al. (2023). The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. Journal of Sleep Research, 32(6), e14035. https://doi.org/10.1111/jsr.14035
  2. De Crescenzo, F., D'Alò, G. L., Ostinelli, E. G., Ciabattini, M., Di Franco, V., Watanabe, N., et al. (2022). Comparative effects of pharmacological interventions for the acute and long-term management of insomnia disorder in adults: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet, 400(10347), 170–184. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(22)00878-9
  3. Sateia, M. J., Buysse, D. J., Krystal, A. D., Neubauer, D. N., & Heald, J. L. (2017). Clinical practice guideline for the pharmacologic treatment of chronic insomnia in adults: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, 13(2), 307–349. https://doi.org/10.5664/jcsm.6470
  4. INFARMED (2017). Benzodiazepinas e análogos 2016: tipo de utilização, ARS, instituição (versão 1.2). Direção de Informação e Planeamento Estratégico, Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. https://www.infarmed.pt
  5. Observador (5 de Março de 2024). Portugal regista o 2.º maior consumo do mundo de medicamentos para insónias (dados de 2022 do relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Estupefacientes, INCB). https://observador.pt
  6. American Geriatrics Society Beers Criteria® Update Expert Panel (2023). American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria® for potentially inappropriate medication use in older adults. Journal of the American Geriatrics Society, 71(7), 2052–2081. https://doi.org/10.1111/jgs.18372